O Peso da Pedra e o Destino da Cinza: O Desafio de Preparar o Aluno Trabalhador para o Mata-Mata do Mercado
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A tese central deste artigo é simples: preparar o aluno trabalhador para avaliações como ENADE, CFC e OAB não depende apenas de mais cobrança, mas de uma governança acadêmica capaz de reconhecer lacunas reais, integrar nivelamento à rotina das disciplinas e transformar esforço individual em resultado institucional sustentável.
Na minha última reflexão, discuti como o recesso de julho é o período em que a alta gestão das Instituições de Ensino Superior (IES) aplica o ditado "enquanto descansa, carrega pedra", planejando o segundo semestre. No entanto, quando olhamos para a realidade das nossas salas de aula, percebemos que esse ditado é a rotina viva e diária dos nossos estudantes.
O nosso aluno que cumpre uma jornada de 44 horas semanais de trabalho, enfrenta o transporte público e senta-se na cadeira da faculdade à noite, carrega o peso invisível de uma engrenagem exaustiva.
O empenho e a garra desse público para obter boas notas e buscar o sucesso nas provações académicas e mercadológicas são admiráveis. Porém, há um nó crítico que a Academia, os Professores e os Gestores precisam encarar de frente: as graves lacunas pedagógicas deixadas pelas etapas anteriores (Fundamental e Médio).
1. O Perfil Real do Ensino Superior: Os Dados Alarmantes do SEMESP
Os dados históricos consolidados pelo Instituto SEMESP e pelo Censo da Educação Superior revelam um cenário incontestável: o perfil do estudante mudou radicalmente nas últimas décadas. Se no passado a universidade era um privilégio de poucos, a democratização do acesso inverteu a pirâmide.
Hoje, das classes C, D e E, vêm cerca de 70% a 75% do total de estudantes matriculados na rede privada de ensino superior do país.
Quando afunilamos essa métrica para quem estuda no período noturno, o dado é ainda mais avassalador: mais de 70% de todos os universitários da noite trabalham em tempo integral, cumprindo jornadas de 40 a 44 horas semanais.
Estamos a falar da esmagadora maioria da força discente do Brasil. Esse público não tem o privilégio da dedicação exclusiva aos estudos, de passar as tardes na biblioteca ou de realizar simulados extensos aos finais de semana. Para eles, o ensino superior não é apenas um rito de passagem social; é o projeto de sustento de suas famílias, o vetor de desenvolvimento de sua região e o motor de sustentabilidade para o país.
2. O Choque dos Ditados Populares e a Realidade do Sistema
A sabedoria popular costuma ser implacável. Dois ditados refletem bem o ceticismo diante desse cenário: "cipó se torce quando é novo" e "pau que nasce torto até a cinza é torta". Se aceitarmos essa lógica determinista, assumiremos que um aluno que ingressa na faculdade com dificuldades de interpretação de texto, leitura analítica ou raciocínio lógico estará condenado ao fracasso na linha de chegada.
Antes de avançarmos, cabe uma diferenciação fundamental e justa: quando apontamos lacunas do Ensino Fundamental e Médio, não estamos responsabilizando individualmente o magistério. Professores da educação básica realizam um trabalho heroico em condições frequentemente adversas. O diagnóstico central recai sobre o modelo estrutural de ensino do país: um sistema historicamente engessado, excessivamente conteudista e pouco conectado ao desenvolvimento de competências de interpretação, análise e resolução de problemas.
A função do Ensino Superior de vanguarda é justamente subverter o determinismo desse sistema. Não podemos trabalhar com uma cultura retorcida que simplesmente pune o aluno por aquilo que o modelo macro educacional não lhe forneceu no passado. É óbvio que a nossa metodologia académica deve impor desafios, provocar o pensamento crítico e despertar o interesse profundo pela profissão. Mas isso precisa ser feito em doses homeopáticas.
A engenharia pedagógica moderna consiste em preencher as defasagens do modelo anterior no momento presente, diluindo o nivelamento cognitivo dentro da prática diária das disciplinas, permitindo que o aluno ganhe desenvoltura e segurança em tempo real.
3. O Paradoxo Regulatório no "Mata-Mata": ENADE, CFC e OAB
Aqui reside uma ferida que precisa ser tocada: exames nacionais de larga escala, como o ENADE, bem como provas de conselhos de classe, como o Exame de Suficiência do CFC e a OAB, exigem elevada capacidade de interpretação, análise de cenários complexos e aplicação de conceitos sob pressão. Na prática, essas avaliações cobram prontidão acadêmica de públicos que chegam ao ensino superior em condições muito diferentes de tempo, base formativa e disponibilidade para estudo.
O segundo semestre funciona como o “mata-mata” definitivo dessas avaliações. Um desempenho fraco nesses exames rebaixa os índices institucionais da IES, destruindo o poder de atratividade comercial para os ciclos seguintes. Esse público diferenciado, mapeado pelo SEMESP, precisa ser visto pelas autoridades competentes sob uma nova ótica. É urgente pensar em formatos avaliativos que agreguem valor ao desempenho desse estudante, reconhecendo a sua bagagem prática de trabalho como um ativo cognitivo, e não ignorando a sua realidade socioeconômica.
4. A Construção a Várias Mãos: O Papel da Governança e do Caixa
Resolver essa equação exige um pacto institucional trabalhado a várias mãos, onde a controladoria e o pedagógico convergem sob uma mesma governança:
A Academia (Direção e NDE): Precisa desenhar matrizes curriculares ágeis (como as microcertificações), que incorporem o treino para essas grandes avaliações dentro da carga horária regular da sala de aula, eliminando a dependência de atividades extracurriculares excludentes;
Os Professores: Precisam atuar como mentores de carreira, dosando os desafios conceituais de alta ordem com o suporte necessário para fechar os gargalos do modelo escolar prévio;
A Controladoria Financeira (CFO): Deve compreender que investir em ferramentas de acessibilidade cognitiva, inteligência artificial para aprendizagem personalizada e programas de monitoria não é uma despesa assistencialista. Trata-se de proteção de receita e de permanência estudantil. Cada aluno das classes C, D e E que evade nos primeiros semestres representa perda acadêmica, social e financeira, inclusive porque o Custo de Aquisição de Aluno já foi realizado no processo de captação.
Conclusão
O aluno que trabalha e carrega sua pedra diariamente não busca facilitação nem diplomas sem valor. Ele busca condições reais, justas e factíveis para competir no mercado com dignidade. Quando a governança da IES compreende esse estudante em sua totalidade, ela rompe o ciclo do determinismo e mostra que a educação superior pode corrigir trajetórias, superar parte das falhas do modelo educacional brasileiro e gerar desenvolvimento para o país.

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro
Vamos debater nos comentários!
Autor: Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça | Diretor UniPinhal




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