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Diploma, Trabalho e Futuro: O Subemprego como Desafio de Nação

há 4 horas
7 min de leitura

No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate não ficou restrito às possibilidades da tecnologia. Ele nos levou a uma questão anterior e mais incômoda: que futuro profissional estamos ajudando a construir para quem confia à educação superior anos de esforço, renda familiar e expectativa de mobilidade social?

    Ao lado da Dra. Priscila Bonini Ribeiro, Pró-Reitora da Unaerp Guarujá, que mediou a conversa com sensibilidade institucional, e de Edigar, da Otimize, construímos um diálogo que ultrapassou a agenda tecnológica. O ponto de convergência foi claro: inovação só tem valor educacional quando amplia a capacidade humana, melhora a inserção profissional e preserva a dignidade de quem se forma.

    O Edigar colocou na tela dados duros e sensíveis sobre a aceleração das dispensas corporativas provocadas pela Inteligência Artificial e, acima de tudo, acendeu o alerta vermelho sobre o avanço silencioso do subemprego entre os jovens com diploma no Brasil.

    O que está em jogo não é apenas a substituição de tarefas por sistemas inteligentes. É a possibilidade de ampliarmos um contingente de diplomados que estudou para avançar, mas encontra ocupações aquém de sua formação, de sua capacidade e do investimento realizado. Se esse descompasso já preocupa economias desenvolvidas, no Brasil ele se torna ainda mais grave: convivemos com baixa produtividade, desigualdade persistente e trajetórias profissionais mais frágeis. Por isso, o enfrentamento do subemprego qualificado não pode depender do calendário eleitoral. Precisa ser tratado como projeto de Nação.

    Esse contraste nos obriga a uma reflexão muito mais profunda do que simplesmente discutir ferramentas tecnológicas: qual é o valor real da formação que estamos entregando?


O Gigante do Subemprego: Uma Questão de Gestão e de Política Pública

    O principal risco para o Ensino Superior já não se limita à evasão. Ele aparece também depois da formatura, quando o egresso conquista um diploma, mas não encontra uma ocupação compatível com os conhecimentos, as responsabilidades e a remuneração que sua formação deveria possibilitar.

    Estudos recentes do setor e indicadores consolidados pelo Semesp apontam que uma parcela expressiva dos diplomados brasileiros ocupa postos que não exigem formação superior. Esse fenômeno reúne trajetórias distintas de funções auxiliares e vínculos precários ao trabalho mediado por aplicativos, mas produz o mesmo sinal de alerta: o país investe na formação e não consegue converter plenamente esse conhecimento em trabalho qualificado e produtividade.

    Quando quatro anos de estudo terminam em uma ocupação que não reconhece a formação adquirida, não fracassa apenas uma expectativa individual. Perdem a família que investiu, a instituição que formou e o país que deixou de transformar conhecimento em desenvolvimento.

    Edigar demonstrou que a inteligência artificial não automatiza apenas processos: ela também reduz postos operacionais que historicamente funcionaram como porta de entrada para recém-formados. A resposta, portanto, não cabe em uma disciplina isolada nem em uma iniciativa passageira. Exige governança nas IES, compromisso do setor produtivo e uma política de Estado capaz de articular educação, inovação, produtividade e geração de trabalho qualificado.

    Nas economias desenvolvidas, o avanço do subemprego entre jovens qualificados já pressiona o debate sobre produtividade, mobilidade social e retorno da educação. Em um país emergente, o efeito pode ser mais profundo. O Brasil não dispõe da mesma rede de proteção, apresenta desigualdades educacionais e regionais mais intensas e ainda precisa elevar sua produtividade. Importar a tecnologia sem construir uma estratégia própria de formação e trabalho significaria modernizar processos enquanto se ampliam frustrações sociais.


A Integridade do Ser Pensante: O Aluno Não Pode Ser Refém do Algoritmo

    Diante desse cenário, algumas instituições podem confundir atualização curricular com treinamento instrumental. Ensinar o estudante a operar ferramentas generativas é necessário, mas insuficiente quando não vem acompanhado da capacidade de formular boas perguntas, verificar respostas, interpretar contextos e assumir responsabilidade pelas decisões.

    Esse é um equívoco perigoso. O sociólogo e educador Edgar Morin, ao formular os pilares da educação do futuro, já nos alertava:

"O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo exterior; todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão."

    A Inteligência Artificial é prodigiosa em processar volumes monumentais de informação e produzir respostas sintéticas em fração de segundos. No entanto, ela fabrica correlações estatísticas, não sabedoria; gera probabilidades, não julgamento ético.

    Se ensinarmos o estudante apenas a aceitar passivamente o que o algoritmo entrega, estaremos formando um profissional dispensável alguém que pode ser substituído por uma atualização de software.

A verdadeira fronteira da empregabilidade está em formar um ser pensante, racional, íntegro e criativo:

1.     Auditoria e Ceticismo Metódico: O aluno precisa saber interrogar os dados gerados pela IA identificar viés algorítmico, alucinações conceituais e inconsistências lógicas.

2.     Capacidade Crítica de Decisão: A máquina calcula cenários; quem escolhe o caminho sob incerteza e assume a responsabilidade humana pelo impacto da escolha é o profissional.

3.     Criatividade e Sensibilidade Contextual: A máquina não compreende a dor de um pequeno comerciante do bairro, a angústia de uma família em litígio judicial ou a complexidade das relações comunitárias. A criatividade humana nasce da empatia e da leitura profunda do contexto.

    Como destacou Joseph Aoun (presidente da Northeastern University) em sua obra seminal Robot-Proof: "Para prosperar na era da automação, a educação superior precisa desenvolver o humano para integração entre a alfabetização tecnológica, a alfabetização de dados e a alfabetização humana (criatividade, empatia, pensamento crítico e ética)."


Do Conservadorismo Isolacionista à Integração Produtiva

    Durante décadas, parte do meio universitário tratou a aproximação com o mercado como ameaça à autonomia acadêmica. Preservar a reflexão crítica continua indispensável; o erro está em confundir independência intelectual com distanciamento dos problemas concretos da sociedade e do trabalho.

    O resultado desse afastamento foi uma relação de baixa confiança: empresas passaram a questionar a utilidade prática do diploma, enquanto universidades viam o setor produtivo com reserva. Reconstruir essa confiança é condição para aproximar currículo, inovação e oportunidades profissionais sem subordinar a educação às demandas imediatas do mercado.

    A superação desse distanciamento requer uma arquitetura de cooperação entre IES, setor produtivo e regulação do MEC. Cada parte tem uma responsabilidade própria: a instituição forma e produz conhecimento; as organizações apresentam problemas reais e oportunidades de aplicação; o poder público cria diretrizes, incentivos e mecanismos de acompanhamento que protejam o interesse coletivo.

  • A Regulação do MEC (com as DCNs e os 10% de curricularização da extensão) não deve ser encarada como fardo cartorial para acumular papéis, mas como a autorização legal para transformar a cidade em laboratório vivo.

  • O Setor Produtivo (o comércio local, as indústrias da comarca, os prestadores de serviço) tem carência crônica de inteligência aplicada, mas não possui recursos para contratar consultorias de grande porte.

·             A IES organiza essa cooperação: prepara os estudantes com recursos tecnológicos e rigor analítico, conecta-os a desafios reais da região e acompanha projetos capazes de diagnosticar custos, redesenhar fluxos de trabalho e implantar soluções digitais nos negócios locais.

    Quando o empresário vê um aluno do 1º ou 2º ano entrando em sua empresa, não para fazer discurso teórico, mas para organizar suas contas e aumentar sua produtividade com olhar crítico e respeito à realidade do negócio, ocorre uma transformação imediata: o estudante passa a ser apreciado, respeitado e cobiçado pelo mercado.

A empresa acredita no potencial desse jovem porque viu a sua competência gerar valor antes mesmo da formatura.


O Retorno do Investimento: O Diploma Não Pode Ser Apenas um Papel na Parede

    Para a imensa maioria dos nossos estudantes em especial o aluno trabalhador do período noturno, a faculdade não é um passatempo. É um projeto de sobrevivência e emancipação familiar.

    Cada mensalidade paga representa escolhas difíceis: é o almoço que foi economizado, a jornada dupla no transporte público, o tempo subtraído do convívio com os filhos.

    Por trás de cada matrícula existe um pacto sagrado: a família investe o que tem na esperança legítima de que aquele diploma trará o retorno esperado em dignidade, remuneração justa e sustentabilidade econômica.

    Nós, gestores de Instituições de Ensino Superior, não podemos considerar concluída nossa responsabilidade no momento da colação de grau. A formação só cumpre plenamente sua finalidade quando o conhecimento adquirido amplia a autonomia do egresso, sua capacidade de gerar valor e suas condições de construir uma trajetória profissional digna.

A nossa métrica soberana de sucesso precisa ser clara:

  • Quantos dos nossos egressos escaparam das armadilhas do subemprego?

  • Quantos deles conquistaram posições estratégicas onde suas mentes são valorizadas e bem remuneradas?

  • Quantos deles aprenderam a usar a inteligência artificial sem nunca abrir mão da própria voz, da ética e da capacidade de pensar por si mesmos?

    Essas perguntas precisam deixar de ser retóricas. Devem orientar indicadores de acompanhamento de egressos, revisão curricular, parcerias com empregadores e decisões dos Conselhos Superiores. Aquilo que a instituição não acompanha tende a permanecer invisível; e o subemprego não pode continuar sendo o resultado que o sistema prefere não medir.


A Lição de Casa para as Lideranças Universitárias

    Para transformar essa reflexão em práticas concretas nas nossas instituições a partir desta semana:

1.     Revisitar os NDEs com Foco no Pensamento Crítico: Auditar os planos de ensino e eliminar avaliações focadas em respostas padronizadas que a IA resolve em três segundos. Exigir defesa oral, resolução de problemas reais sob pressão e auditoria crítica de relatórios gerados por algoritmos.

2.     Transformar a Extensão em Vitrine de Empregabilidade: Alinhar os projetos de extensão com as associações comerciais e arranjos produtivos locais. O aluno deve atuar como consultor de inovação e produtividade desde o primeiro ano de curso.

3.         Pacto nacional pela dignidade do diploma: acompanhar a trajetória dos recém-formados e tratar a empregabilidade compatível com a área de formação como indicador central de qualidade. Esse compromisso deve ultrapassar instituições e mandatos, reunindo ensino superior, setor produtivo e poder público em metas contínuas de qualificação, produtividade e inserção profissional.

    O recado que levamos do FNESP é inequívoco: a inteligência artificial continuará avançando e as rotinas previsíveis perderão espaço. O diferencial não estará em disputar velocidade com a máquina, mas em formar pessoas capazes de interpretar consequências, decidir com integridade e converter conhecimento em valor para a sociedade.

    Essa missão não pertence apenas às instituições de ensino, às empresas ou a um governo. Ela exige um projeto de Nação: formar profissionais que conduzam a tecnologia com discernimento, transformar diplomas em trabalho qualificado e fazer da produtividade um caminho para a dignidade. Um país que educa sem criar espaço para o talento que formou não desperdiça apenas investimento; desperdiça futuro.



Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça

Professor, Contador, Consultor, Palestrante e Gestor Financeiro

 
 
 

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