Da Regulação Cartorial ao Estado Indutor: o MEC na Aliança entre Ensino e Território Produtivo

Durante anos, a gestão acadêmica brasileira celebrou matrículas e diplomas sem acompanhar, com o mesmo rigor, o destino profissional dos egressos. Essa lacuna tornou-se crítica: a automação e a inteligência artificial já reduzem funções operacionais que historicamente serviam de porta de entrada aos recém-graduados. No 28º FNESP, promovido pelo SEMESP, o debate conduzido pela Dra. Priscila Bonini Ribeiro (Unaerp), com contribuições de Edigar (Otimize), evidenciou esse risco. Ignorá-lo significa ampliar uma geração de jovens diplomados, porém subutilizados. A questão exige ação coordenada entre ensino superior, setor produtivo e Estado.
A geografia do desvio ocupacional
O subemprego qualificado assume formas distintas conforme a estrutura econômica de cada região:

Uma vulnerabilidade transversal
Nenhuma área está imune à precarização. O problema aparece de formas diferentes, mas tem uma raiz comum: formação pouco conectada às práticas profissionais emergentes.

O tempo do estudante e a formação que importa
O estudante trabalhador não pode esperar quatro anos para perceber retorno concreto da graduação. Se os primeiros semestres não ampliarem sua capacidade de gerar valor, renda e mobilidade profissional, a evasão deixa de ser surpresa e passa a ser consequência previsível. A advertência de Peter Drucker permanece atual: em períodos de ruptura, o maior risco é insistir nas premissas de ontem. Isso não significa formar o aluno como mero operador de tecnologia. Como lembra Edgar Morin, informação não equivale a julgamento; sistemas computacionais organizam probabilidades,mas não substituem deliberação crítica e responsabilidade ética. A resposta está no que Joseph Aoun denomina Humanics: integração entre domínio tecnológico, fluência em dados e alfabetização humana, apoiada em ética, criatividade e pensamento autônomo. O diferencial do egresso deve ser sua capacidade de interpretar, decidir e agir com responsabilidade.
O MEC como agente indutor
Se o subemprego é uma questão de Estado, o MEC não pode limitar-se à fiscalização de indicadores e formulários. A regulação deve aproximar campus e economia local, premiando instituições e empresas que produzam inserção profissional qualificada. Essa política pode operar em duas frentes complementares:1. Incentivos ao setor produtivo: micro, pequenas e médias empresas que funcionem como laboratórios de aprendizagem, apresentem desafios reais e acolham estagiários desde os primeiros semestres poderiam receber abatimentos fiscais, prioridade em licitações ou crédito subsidiado. Ao compartilhar a formação do jovem, a empresa atua como co-tutora e merece contrapartida econômica.2. Bonificação às IES transformadoras: instituições com resultados comprovados de inserção qualificada, evolução salarial e impacto territorial deveriam obter reconhecimento regulatório. IGC, CPC e recredenciamento poderiam incorporar indicadores de aderência ocupacional, enquanto IES de alto desempenho receberiam prioridade em programas federais e simplificação de processos.
Empresa e IES no mesmo ecossistema
Com respaldo regulatório e financeiro, a cooperação com o setor produtivo deve começar no ingresso do estudante e organizar-se em três movimentos:1. Extensão como residência de produtividade territorial: usar os 10% regulatórios para conectar estudantes e docentes a problemas concretos de empresas, cooperativas e organizações locais, com diagnósticos e soluções aplicadas.2. Capacitação instrumental com IA: introduzir, desde o ciclo inicial, ferramentas de automação, análise de dados e melhoria de processos úteis às organizações parceiras.3. Certificações modulares: reconhecer competências a cada semestre para antecipar a empregabilidade e permitir que o estudante demonstre valor antes da conclusão do curso. Quando empresas observam estudantes resolvendo problemas reais, a distância entre academia e mercado diminui. O graduando deixa de ser visto como custo e passa a ser reconhecido como agente de produtividade e inovação.
A missão dos gestores educacionais e das autoridades públicas é restituir valor concreto à jornada universitária. Educar com compromisso territorial significa fazer do diploma não apenas um símbolo, mas uma via real de emancipação, renda digna e desenvolvimento econômico.

Prof. Me. Renato Camargo de Mendonça
Gestor, Pesquisador de Governança e Liderança no Ensino Superior




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